segunda-feira, 27 de junho de 2011

Notas de rodapé


E se trocássemos?
E se eu fosse tu, e tu fosses eu?
E que tal se não fossemos nós?
E se fossemos os outros?
Seria-mos capaz de continuar a ser nós?
Que seria feito da nossa essência?
Só pedia que me volta-se a encontrar.
A essência, a raça, a força,
Que nos faz nós, quando não somos os outros.
E se não somos os outros, para quê querer ser?
Admite, o melhor é seres tu mesmo.
Quem melhor podia ser tu, se não tu mesmo.
Não procures por aquilo que achas que queres ser,
Procura aquilo que tens em ti mas ainda não descobris-te.
Sê autenticamente genuíno.
Agradece a ti por seres como és,
Agradece aos outros por te terem formado do jeito que és hoje.
Pela minha vida passas-te tu, ele, ela, eles,
E continuarão a passar uns outros tantos,
A todos vós, um muito obrigado.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Poema em Linha Reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão - príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?

Então só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Álvaro de Campos

O Guardador de Rebanhos

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos", 8-3-1914

Se te queres matar

Se te Queres Matar Se te queres matar, por que não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por atores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fím?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...

A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,

Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros...

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...

Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência! ...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?

Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?

Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida? Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjetividade objetiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente,
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células noturnamente conscientes
Pela noturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atômica das coisas,
Pelas paredes turbihonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...


Álvaro de Campos

quinta-feira, 16 de junho de 2011


A minha alma está gelada como esta noite.
Por dentro choro,
ao ritmo da chuva que caí lá fora.
O vento que lá fora se levanta,
faz um barulho que leva ao desespero,
tal como quando grito cá dentro por ti...

you, me , us ...

Inferiores são aqueles
que inferiores se querem.
Lutadores são aqueles
que da guerra se erguem.
Da ferida fica crosta,
no coração a dor,
assombra-nos, rouba-nos
a carne dos ossos, o condor!
Selvagem espírito foi,
despido de preconceito vivera ...
Morre lutador!
Estás tão longe da tua quimera!

Trabalho de Sociologia - " o Consumismo em Portugal"

O consumismo em Portugal
Antes de explanar o tema, acho que é necessário saber exactamente o que é o consumismo.
“Consumismo é o ato de consumir produtos e/ou serviços, indiscriminadamente, sem noção de que podem ser nocivos ou prejudiciais para a nossa saúde ou para o ambiente”, ou seja, consumismo não é adquirir bens a subsistência diária mas sim bens dos quais não necessitamos para a nossa sobrevivência.
Em Portugal, ao longo dos últimos anos os níveis de consumismo dos Portugueses têm aumentado. Não por necessidade, mas sim por capricho e ostentação.
Na minha opinião, o factor principal para isto terá sido a globalização, um fenómeno de abertura das economias e das respectivas fronteiras em resultado do acentuado crescimento das trocas internacionais de mercadorias, ou seja, o que existe por exemplo nos Estados Unidos da América, poderá estar igualmente para venda em Portugal.
O que aconteceu com Portugal é que, após 25 de Abril de 1974, o país tornou se membro de um Comunidade maior como a União Europeia, e teve igual abertura a mercados maiores e mais apetitosos, o problema é que o português, nunca teve bem a noção que a sua capacidade de compra nunca será igual ao de outros grandes países, e com tal compra desalmadamente para se tentarem igualar aos outros.
O problema infelizmente afecta a todos, vivemos numa sociedade em que as pessoas são julgadas pelo que têm e não por quem são, e posso falar por experiência própria, uma vez que diariamente vivo numa comunidade escolar, onde vejo claramente que quem não têm os sapatos de marca X “não é ninguém”. O problema começa logo nas camadas jovens, uma camada que à partida deveria ter uma mente mais aberta e com uma forma diferente de ver as atitudes e valores das gerações anteriores, e como tal contraria-la, mas este problema também parte das camadas jovens, há que ter em atenção este facto.
O consumismo também chega as camadas políticas. Temos governantes que tem gastos desnecessários endividando o país, fazendo compras desnecessárias para o país, como o famoso caso dos submarinos.
Outra camada afectada, será a classe activa trabalhadora, que apesar de saber que o seu ordenado é 500 euros, gosta de gastar antes 1000 euros. São uma classe que vive muito da ostentação e da imagem que deixam transparecer e como tal, tem gastos desnecessários em bens como carros ou casas. O problema é que muitas das vezes, para terem estes mesmo bens, tem de recorrer a empréstimos, o que tem vindo a aumentar exponencialmente nos últimos anos, e que tem levando muitas famílias à ruína, uma vez que chegam ao ponto de não ter dinheiro para cobrir aquela divida, por sua vez o bem adquirido é levado pelo banco, e acabam por ficar até ao fim da vida, quando a divida não passa para os filhos, a pagar o empréstimo e o bem que lhes foi levado.
Concluo-o que os portugueses são pessoas supérfluas, que se preocupam muito mais no seu apetrechamento físico e não intelectual. Veja-mos uma comparação entre Portugal e a Holanda, um país onde o nível de vida é muito superior e onde as mentalidades estão muito mais desenvolvidas. Os portugueses preferem gastar em roupas e carros, enquanto os holandeses gastam o seu dinheiro em viagens, uma forma de se enriquecerem culturalmente.
“ O consumismo dos portugueses
10 Novembro 2007 DN
"Os portugueses são mais consumistas do que os holandeses." O tom da frase mostra que Rita do Vale não tem sombra de dúvida. Sabe do que fala, porque viveu durante quatro anos na Holanda. Foi lá que fez a sua tese de doutoramento, na universidade de Tilburg, no Sul do país, justamente sobre comportamentos dos consumidores.
A sua tese não incidiu nestas comparações. O trabalho que fez centrou-se sobre os comportamentos de autocontrolo no consumo. Mas quatro anos dão para ver as diferenças a este nível. "Os portugueses preocupam-se muito com a sua imagem e consomem produtos de marca em carros e roupa, o que ajuda a explicar o elevado nível de endividamento das famílias portuguesas.
"Os holandeses não estão preocupados com a imagem exterior. Isso vê-se, por exemplo, nos centros comerciais deles, que são muito menos vistosos do que os de cá".
O que consomem então os holandeses? "Sobretudo viagens". Um perfil que agradou à bolseira de doutoramento que Rita do Vale foi durante quatro anos na Holanda.
O regresso a Portugal, no final de 2006, foi um misto de entusiasmo e expectativa, por voltar ao país, à família e aos amigos, e alguma dificuldade de adaptação a todo esse universo que, afinal, já não era exactamente o mesmo. "É quase como voltar a um país estrangeiro que se conhece bem", diz a investigadora. “
Assim, concluo que os portugueses têm ainda muito a aprender, os portugueses apreendem só dos outros países aquilo que querem. Em vez de se preocuparem em seguir as modas de Milão, deviam estar mais interessados em ir até lá, aprender detalhes da cultura deles, por exemplo.